Seriam tanques de guerra realmente mais importantes do que pêras? Com o passar do tempo, Karel percebeu que a resposta não seria tão óbvia quanto pensara, e começou a secretamente simpatizar com o ponto de vista de Mamãe: uma gigantesca pêra em primeiro plano, e, em algum ponto distante, um tanque, minúsculo como uma joaninha, pronto para a qualquer momento voar e desaparecer. Então Mamãe estaria certa, no final das contas: tanques são efêmeros, pêras são eternas. (M. Kundera)

Domingo, Setembro 06, 2009

Mudança de paradigma

Eu estava operando com o paradigma das 3 refeições diárias -- mal e porcamente, confesso. Já fiz parte da comunidade que compartilhava da crença em carboidratos próximos de zero, e obtive sucesso quando não comungava em conjunto da liberdade absoluta no consumo de gorduras. Por libertinagem fui me convidando para ingressar entre os que pregam a qualidade sem restrições de quantidade, e estrepei-me miseravelmente. Hoje, retornarei à viva fé na fome, uma fome parca em carboidratos ou gorduras, fome monástica que purifica-se em porções miseráveis, frango grelhado e saladas de alface, fome diurna que à noite não pode ser aplacada por mais do que um iogurte light, fome de doces que precisa contentar-se com frutas de baixo teor calórico, fome que chega a pagar cinco reais a mais por nenhum arroz no temaki. Fome que permite, sob vigoroso controle, grãos integrais em sábados e feriados. Fome de quem levou um cano da nutricionista milagrosa recomendada pelos amigos que perderam 10 kg em poucos meses, e só deus sabe quando conseguirá novamente espaço em sua intensa agenda, fome de quem revoltou-se contra a nova ciência porque a de vovó, afinal de contas, funciona, e não desmarca consulta. :/

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Live young.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

Isto não é arte



Porque aos 7 anos, ninguém é artista.

Nada contra o rapaz, ou seu trabalho ou interesse, mas arte é pensar sobre Arte; intuição técnica, olho, sabe lá o que digamos dos desenhos, podem atrair as atenções quando advindos de alguém tão novo, mas não constituem arte porque desconhecem a Arte.

Mas essa, é claro, é minha opinião. And they do change, you know.

Quarta-feira, Julho 29, 2009

isto é amor

Os católicos, sempre quis escrever um post longo sobre isto, coisa que hoje neste exato momento percebo ser desnecessária, visto que a extensão é exatamente oposta ao sintético do que se pretende evidenciar, enfim, acertaram nesta frase aqui -- em minha opinião, é claro -- sobre o tipo de desejo e certeza que define o que é amar:

...na saúde e na doença, até que a morte nos separe.

Eu não sei se a repetição gerou certo cansaço, mas, rapaz, isto é lindo.

(Outro texto de beleza fascinante que parece ter deixado de impressionar em parte, imagino, pelo complexo da sintaxe, e muito também pelo corriqueiro, é nosso Hino Nacional Brasileiro. Meu trecho favorito, em prosa por pirraça:

Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora à própria morte, terra adorada.

Talvez eu me comova muito facilmente com essa coisa de morrer.)

Segunda-feira, Julho 27, 2009

o que há, velhinho?

É desprezível um escritor que só escreva quando infeliz.

honestidade

Ser honesto permite apenas reconhecer-se desonesto, ou é possível que chegue a impedir a desonestidade?

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Inferno astral e so long, Jacko

Eu estou genuinamente triste porque Michael Jackson morreu.

E genuinamente PAU DA VIDA porque perdi uns 30 minutos escrevendo sobre COMO COISAS IRRITANTES RANDÔMICAS ESTAVAM ACONTECENDO CONTINUAMENTE ESTA SEMANA (E ESPECIALMENTE HOJE) E COMO EU ESTAVA EXTREMAMENTE INTOLERANTE A ELAS.

E perdi, distraidamente, o conteúdo do texto fazendo uma pesquisa besta que me tomou a atenção de forma despropositada e me fez fechar a janela do editor sem salvar as alterações (sequer percebi que isso me foi solicitado de alguma forma).

Vocês jamais compreenderão como esta experiência que tive, neste momento, foi profundamente meta-irritante. Só eu conheço o texto perdido e sei o quanto tê-lo descartado sem querer significa um sinal dos céus de que hoje é um dia para eu realmente berrar muitos palavrões abafados no travesseiro.

Quarta-feira, Abril 08, 2009

pausa, graças.

Ando tendo umas semanas cansativas. Acordando cedo demais e abusando de corpo e alma, literalmente. O que faço melhor é preservar a alimentação saudável (ômega 3 às pencas e um dia meu desafio constante a Murphy finalmente me fará pagar por comer peixe cru tão indiscriminadamente, com tanta freqüência), e nem digo leve; os outros hábitos de cuidados seguem mal-e-mal a sombra do que já foram.

Esta noite é uma brecha e parece presente que eu a esteja passando a sós, cercada de muita chuva e de resto, silêncio. Não que não aprecie companhia, inda mais a que normalmente tenho nestas horas, mas o descanso é atividade que, quando demasiado necessária, se deve praticar quieto -- é egoísta e exige a intimidade máxima da solidão.

Poucos parágrafos porque o tempo pedia, coisa de escritor amador cafona que não resiste ver poesia em temporal; está de bom tamanho, agora é hora do encontro com a cama; finalmente longo como se deve.

Domingo, Abril 05, 2009

Comfort food

Esta é uma proposta bem fácil de preparar, razoavelmente inventiva, nutritiva, de baixa caloria, colorida e bastante saborosa. Sigam-me os bons.

- Purê de maçã. Receita: cozinhar as maçãs (duas das bem grandes servem facilmente duas pessoas) sem sementes e descascadas, juntamente com as cascas e uma colherzinha talvez de açúcar (eu usei, mas vou testar sem -- acho que é dispensável). Bater bem, com uns 200 ml de suco de laranja (eu bati com um pouco de casca também, mas a maior parte realmente foi para o lixo). Deixar a mistura na panela, apurando até o ponto desejado, salgando a gosto (cuidado para não estragar o adocicado maravilhoso).

- Uma salada de tiras finíssimas de abobrinhas, aipo, tomates e alho-poró. A proporção fica a critério do chef mas eu recomendo dar importância às abobrinhas e tomates. Forrar uma peneira com bastante manjericão e hortelã frescos e disponha os legumes por cima (não se esqueça de abafar com uma tampa). Daí... tcharans... cozinhar os legumes no vapor do purê de maçã que apura. As tiras dos legumes cozinharão no vapor de laranja e maçã, passando através das ervas antes de penetrar nos legumes. Salgue levemente e ao servir não se esqueça de um fiozinho de azeite.

- Filezinhos de peixe fritos na manteiga, ao leite de côco com curry. Se o peixe for mais forte, como o atum, já sugiro apenas grelhar (deixando o meio mais cru -- hmmmmm...); se tratar-se por exemplo de uma pescadinha, como foi o meu caso, aplica-se então o molho sugerido. Frite os filés em uma colher de manteiga, e enquanto isso, adicione em outra panela 100 a 150 ml de leite de côco e polvilhe o equivalente a uma colher de sopa rasa de pó de curry (amarelo ou vermelho, a critério do cozinheiro).

O fim de semana pareceu mais feliz. A finalização escolhida foi um sorvete de iogurte com limão siciliano, cremoso, refrescante e soberbo em todas as características atribuíveis a tal sobremesa. A bebida pode ir desde uma refrescante água de côco até um vinho branco que eu não saberia escolher. Confesso que acabei me esquecendo dela.

Espero contribuir para a felicidade de algum solteiro em busca de uma experiência gastronômica solitária, prática e agradável (ou talvez de outras experiências e decorrentes da alimentar, quando em companhia de alguém mais interessante).

Domingo, Março 08, 2009

armazenagem

Descobri agora que o iPod Touch não permite -- ao menos, a rigor -- a armazenagem de arquivos ao estilo pendrive, ao contrário dos outros modelos, como o Classic ou o Shuffle. Achei isso bastante irritante porque não vejo motivo para ficar entupindo a maquineta de vídeos -- eu não devo assistir, como regra geral, a filmes e episódios de seriados de televisão na telinha minúscula. Como disse David Lynch, a tradução atenuando uma certa deselegância diante das novas tecnologias portáteis de comunicação e reprodução de mídia, "é uma grande tristeza que você pense que assistiu a um filme em seu telefone".

Falando em David Lynch, é nele mesmo que ando pensando quando esbarro nesta questão da transferência de arquivos. Baixei as duas temporadas de Twin Peaks, mais uns extrazinhos daqui e dali, para os fins de semana tediosos. Ao invés de gravá-los num DVD, prefiro gravar os arquivos no notebook -- e precisava de uma pendrive robusta, que eu achava que o Touch poderia substituir. Bem. Paciência.

Para quem não conhece, Twin Peaks foi uma série para televisão mutcho-loca, exibida no início da década de 90, altamente viajante, envolvendo sonhos com anões dançarinos e introduções profundamente estranhas da Senhora do Tronco, girando em torno do assassinato brutal de uma adolescente popular em uma cidade do interior, investigado por um agente do FBI interpretado pelo preferido do diretor, Kyle McLahlan. Eu e meu namorado, em um longo carnaval passado (não o último), dedicamo-nos aos primeiros 9 episódios e não conseguimos alugar os demais em nenhum outro lugar.

A série foi inteiramente pensada para a tela da televisão -- e isso se mostra em cenas com fotografia fantástica, aproveitando ao máximo a verticalidade da imagem, e uma câmera cuidadosa. A trilha sonora de Angelo Badalamenti é também um ponto forte do trabalho. Lynch trabalha equilibrando-se sobre a não-linearidade que adora e as necessidades de uma trama policial que, como tal, apresenta-se como um quebra-cabeças a ser continuamente preenchido.

Bem, bem. A pendrive robusta, boa e velha, já fez seu trabalho. Incluo mais uma reclamação no rol das já existentes quanto a estes novos e pequenos produtos Apple: vamos combinar que esses espaços de armazenagem, amigo Jobs, não são lá de toda essa utilidade se restritos a arquivos que você só pode acessar no iPod. Haja saco para ouvir música. E pensar que assistiu a filmes.

Domingo, Março 01, 2009

as liquidações e o caranguejo

Há mais de um mês há liquidações inacreditáveis de moda por toda a cidade. Estou enlouquecendo pois a crise econômica mundial também me afetou; não é momento para contrair dívidas superficiais como ROUPAS SAPATOS BOLSAS!!!!, mas por outro lado, se não for agora, só Julho; estou decidida a não renovar o closet fora das promoções. E então. Que fazer?

Bem, o que andei fazendo por esses dias foi limitar as compras, se não me engano (pode ter havido mais algum desatino) a um lindo colete verde de corte elegantérrimo por uma bagatela, e a uma sandália cobra absolutamente irresistível. Estas compras foram incontroláveis; o sangue frio a que me obriguei por meses para finalmente adquirir estas peças não podia ter sido em vão, afinal de contas. Explico: já há um ano ou dois as lojas estão aderindo a pesados descontos nos finais de estação. Sabendo disso, este ano já comecei a me programar para as compras de Fevereiro: passei o período de Setembro a Janeiro cuidadosamente selecionando as peças e lojas que me interessariam quando a liquidação generalizada tomasse conta das ruas e shoppings. Isso exige um auto-controle profundo: o risco de se esgotarem os estoques no meu tamanho é relativamente alto, porque sou de medidas irritantemente comuns.

A fome torna difícil a continuação do assunto anterior (ou qualquer outro que não seja ela própria). Acordei há umas duas horas. Não tomei café da manhã -- apenas um café. Há uns 4 dias comprei caranguejo. Foi para uma salada que me saiu deliciosa: muito manjericão, a carne de caranguejo desfiada e levemente refogada com cebola e hortelã, folhas de alface. O molho era de mel, muito azeite, limão e uma colher de chá de um produto interessante que conheci recentemente, caviar de tomates secos; ficou delicado e levemente adocicado, extremamente refrescante, uma felicidade. A receita foi adaptada de uma que assisti pela televisão, num dos diversos programas apresentados pelo Jamie Oliver, e a original usava suco de grapefruit no molho, em lugar do limão e mel, e pimentas chili picadas, que excluí da história em honra de minha tia e em meu próprio prato substituí por doses cavalares de calabresa seca. Único porém é que não mata a fome. Acreditem: é obrigatoriamente entrada.

Enfim, isto tudo posto, há ainda manjericão e caranguejo em minha casa. Este último está congelado. Eu estava com o plano maligno de fazer um penne integral na manteiga com a carne delicada e a erva adocicada, acredito não haver necessidade alguma de outro molho que não também bastante azeite; estou contudo tomada de uma preguiça imensa que ainda, prolonga a fome e torna cada vez mais sofrido o preparo, se for de fato decidido. De qualquer forma não há grandes alternativas. O que fazer?

A pergunta é retórica. Não pretendo morrer de fome aguardando os comentários aconselhadores. Contudo, para efeito de mantermos a brincadeira, sintam-se à vontade para discorrer sobre as variadas maneiras com que lidam com as dificuldades decorrentes da preguiça de preparar o almoço em momento em que o organismo já implora por nutrição.

a biblioteca

Sexta-feira fui devolver livros a uma biblioteca. Já passavam 10 dias de atraso. Não eram meus; de meu namorado, que viaja. Ele ficará por tempo igual sem poder pegar novos emprestado. Antes de mais nada protesto em minha defesa que o pedido de que eu retornasse os volumes à casa foi feito de forma vaga e com antecedência exagerada, só podendo ensejar meu esquecimento completo do compromisso. De fato o que ocorreu foi o seguinte: 6 dias antes de viajar, ele me fez o pedido e reclamei pra cacete; o assunto não foi mais discutido e no dia de sua partida, ele largou uma pilha de livros em minha sala de estar. Agora, veja bem, você que está lendo tudo já encadeadinho pode achar que era ÓBVIO que tratava-se da devolução solicitada, mas eu, que vivi as situações e os dias, simplesmente pensei "puxa, como ele gosta de deixar tudo espalhado" e guardei os livros junto a outras coisas dele.

Ele me perguntou se havia devolvido faltando uns 2 ou 3 dias para o prazo se encerrar. Foi quando então percebi que os livros largados em minha sala de jantar eram os tais que eu havia tentado a todo custo evitar devolver. Houve um ligeiro debate quanto à justiça de minha desatenção mas, em todo caso, concordei em retorná-los à biblioteca. Daí evidentemente esqueci de fazê-lo no prazo, porque sou uma pessoa muito ocupada. Preciso me lembrar de fazer algo ao longo de duas semanas para efetivamente consegui-lo a tempo; LOOOOGO, entreguei com este período (até pouco menos!) de atraso. Mas tive meu castigo: chegando à biblioteca, que era perto o suficiente de meu trabalho para ser irritante pegar um táxi dali até lá, mas não tanto que fosse possível caminhar no calor dos infernos com a livrarada no lombo, tive a notícia de que o lugar só abriria dali a duas horas. Sumiu o chão sob os meus pés. Deu lugar a chamas de irritação profunda que me fariam dar pulos de raiva não fosse o peso que carregava.

Resolvi a questão indo almoçar com um colega em local próximo à biblioteca; obriguei-o a carregar o livro mais pesado, e assim se dividem os fardos da vida.

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

Perdão é coisa séria; não se finge, nem se dá mais ou menos; é ou não é. Cruel o quase; para si, também. É preciso compreender o que é passível de aceitação; a negação de um exame sério de consciência nos impele a agir sem respeito a nossa própria lógica, fingindo repulsa ao perfeitamente possível e abraçando o verdadeiro inconcebível. Assim germinam, de relacionamentos os mais promissores, os fracassos retumbantes e prolongadamente torturantes, e a coisa acontece rápido, rápido.

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

A lógica da etiqueta

Um apanhado arbitrário de situações em que as regras fazem sentido, mas não necessariamente são as que você espera

- A gentileza deve ser pró-ativa. Vivemos atualmente realidades complexas em que senhoras de 50 anos (vá à Barra da Tijuca se discorda) podem quebrar de porrada rapazes de 18 anos. Assim sendo, uma única regra simples de cessão de assento em veículos em movimento não se moldaria à sofisticação da paisagem fisicultural contemporânea. Critérios sugeridos: uso de acessórios de auxílio à sustentação e movimentação; gravidez evidente ou crianças de colo; análise de firmeza vis à vis circunferência de bíceps e coxas. Observe o ambiente a cada renovação substancial da população confinada à área correspondente a uma circunferência de raio de um metro e meio, buscando indivíduos qualificados a substituí-lo em sua cadeira.

- Homens devem abrir ao menos as portas pesadas para as mulheres, seja porque são usualmente mais fortes do que elas ou porque se não o são, deveriam fingi-lo.

- Homens devem deixar mulheres definirem o ritmo das caminhadas urbanas. Jamais devem forçá-las a confessar o terrível incômodo que o salto ou a costura exuberante de seus sapatos pode lhes estar causando.

- Em caso de que ambos ocupem o banco de trás, homens devem esperar que as mulheres sentem-se exatamente ao lado da porta do carro pela qual adentraram o veículo. Se as deixam entrar primeiro, devem fazê-lo pela porta oposta; isto se dá pois o tecido das roupas feminas é usualmente mais delicado (meias-calças) e o corte, mais complexo (saias curtas) do que os das vestimentas masculinas, sendo portanto de extrema indelicadeza obrigar uma dama a arrastar-se para o lado enquanto o varão de calças confortavemente se acomoda sem dificuldades.

- Homens devem auxiliar mulheres na descida do carro. Além das dificuldades já citadas na justificativa da regra anterior, não se deve esquecer a carga usual de bolsas e demais possivelmente numerosos acessórios que compõem seu vestuário, além do salto alto, todos fatores que tornam extremamente complexa a saída do veículo.

- Homens devem evitar deixar explícito que estão deixando de lado uma expressão grosseira em uma conversa ou reunião profissional devido a presença feminina no recinto. Se quer ser extremamente polido, deixe a esperteza rude de fora da conversa -- não a mencione, não implore de antemão o perdão das damas por sentir a profunda necessidade de proferi-la em seguida. Se acredita que o impropério é digno de menção, não faça as mulheres ao seu redor parecerem alienadas puritanas. Just let it out, brother.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Excerto

Minhas unhas descascam e tenho preguiça de tirar o esmalte e pintá-las novamente. Tenho muita preguiça, de uma maneira geral. Ando existencialista demais; tudo me soa desinteressante e desnecessário, todo interesse me parece artificial. Tento resolver isso montando uma rotina que me obrigarei a cumprir, mas ainda que eu própria tenha decidido por tomar esta medida, considero-a algo patética por justamente tratar-se de uma auto-imposição; me soa estranho, desconfortável que eu precise de artifícios para viver o que considero uma boa vida. A busca da satisfação deveria ser natural. Contraria-me um pouco o conceito de força de vontade; é como se a vontade fosse desvinculada de sua força, quando eu considero que só há vontade quando há força; do contrário, o que há é idéia.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

pride

Por que teria que acreditar não ser amada, se não quero? Pois esses conselhos não fazem sentido algum, veja, perceba que tem assenhorado seu coração alguém que aproveita-se de sua fragilidade, aquela já percebeu que em você reside toda a diversão descompromissada de que precisa para fugir do cotidiano de que no entanto não deseja se livrar, sequer macular; daí todo seu sofrimento, veja o quanto é desimportante, mas é claro que não o notará: não há sentido em querer falsear o próprio desejo, ele existe e cega porque se acompanha-o rejeição, a dor é invariavelmente insuportável; daí as sinapses disfuncionais interrompendo a percepção antes que chegue a ferir o orgulho.

(eu poderia seguir com uma série de observações sobre solidão e a tinta borrada fresca em minhas unhas, nauseando-me e obrigando os dedos a cuidados irritantes ao trabalhar; não o farei, cafonérrimo.)

Terça-feira, Maio 06, 2008

uma quase raposa.

Nunca sei se a gema do ovo é amigável ou execrável; outro dia falando sobre seu teor de colesterol fui repreendida por um militante protéico qualquer afirmando que justamente esta que é a ex-futura-galinha é a fonte de todas as soluções para os problemas do mundo, inclusive tive a impressão de que se todos decidissem diariamente por alimentar-se destas promessas de pintinho coisas extraordinárias ocorreriam, como franceses pararem de falar bobagens auto-elogiosas ou americanos perceberem que a esta altura do campeonato eleitoral os democratas já se desgastaram demais e é irrelevante se o candidato à candidatura será o negro quase muçulmano ou a mulher totalmente corna.

De uma certa forma compreendo a necessidade do dogma; se ovos fossem alimentos inequivocamente desprezíveis como só o Patolino sabe dizer, minha única preocupação seria ceder ou não à terrível tentação. Mas não. Fui amaldiçoada por um mundo em que cientistas consagrados, obcecados por galináceos e sua pré-prole, diariamente renovam suas conclusões sobre gemas e claras; sou obrigada a compulsivamente atualizar-me quanto ao instável status sócio-oval se tiver algum interesse em manter-me viva e saudável caminhando por longos dias de cujo fim quero distância.

Faz-me falta o pecado, sabê-lo e sabê-lo errado. Sua ausência me exige demais: que descubra e contextualize e julgue, há momentos em que gemas são dispensáveis e talvez outros em que sejam cruciais. A coerência a que me obrigo então insiste em que os valores sobre os quais apóio as decisões a que sou obrigada para não morrer de fome tenham consistência superior a de uma casca, que esta à primeira bicada arreganha-se toda. Acabo pensando à beça, inclusive escrevo post; até agora, contudo, nada de ovo na pança.